O dia dos finados é uma data delicada para muitas pessoas, pois é um momento de lembrar a perda de uma pessoa querida. Para alguns, é também uma lembrança da própria finitude.

 

Apesar de sabermos que a morte é um processo natural da vida, temos uma dificuldade inconsciente de aceitá-la. A morte é um mistério. Não sabemos de fato o que ela é, quando irá ocorrer, o que acontece depois e muito menos podemos evitá-la. Por esse motivo, cada cultura constrói explicações e símbolos sobre a morte, na tentativa de dar algum contorno para isso que é irrepresentável.

 

Na maioria dos países ocidentais, tal como o Brasil, a morte é tratada como um tabu. Isso significa que não falamos sobre e evitamos pensar a respeito. Trata-se de um mecanismo de defesa, como se ao não falar da morte ela pudesse deixar de existir. Porém, quando deixamos de falar, dificultamos o seu processo de elaboração. Não encontramos no meio social mecanismos para simbolizar e não aprendemos a lidar com os sentimentos que advém da perda.

 

Aliado a isso, temos uma sociedade que preza pela produção e a eficiência. A dor e a tristeza vão contra essa norma e, por esse motivo, devem ser silenciados. Não há lugar para o sofrimento. O resultado disso é a medicalização de processos normais da vida, incluindo a morte. Podemos perceber isso através do aumento do uso de antidepressivos e ansiolíticos para superar o luto. Dessa forma, o luto passa a ser uma coisa solitária, que não pode ser falada ou demonstrada e deve ser superado o mais rápido o possível.

 

Entretanto, o luto não é uma fase e sim um processo. Isso significa que não há um tempo cronológico. O luto oscila entre momentos mais difíceis que outros, sendo um trabalho contínuo de elaboração, de tentativas de encontrar um significado e um novo modo de se posicionar diante da vida. E a intensidade desse processo irá depender da singularidade de cada um, do momento da vida em que isso ocorreu, da relação que se estabelecia com a pessoa e as condições envolvidas na morte.

 

E por mais doloroso que seja, não há outra alternativa: a única forma de elaborar um luto é vivenciando ele. Aquilo que não é expressado, não pode ser elaborado e acaba encontrando outra forma de se fazer presente. É necessário se permitir sentir, para que seja possível acolher, compreender e ressignificar.

 

Portanto, é importante que mudemos a nossa relação com a morte. Precisamos falar sobre ela, dar-lhe um lugar no discurso social, porque somente assim poderemos integrá-la como um processo natural e construir recursos para simbolizar-lá, tornando o processo de elaboração do luto mais fácil e menos solitário.

 

Para finalizar, vale ressaltar a importância de falar sobre a morte com crianças e adolescentes. Eles possuem menos repertório para lidar com a perda e, portanto, dependem de um adulto que auxilie no processo de elaboração. Ao final do texto, há algumas dicas de livros e filmes que podem ajudar na conversa sobre morte e luto com as crianças.

 

A todos que perderam alguém importante, os meus sinceros abraços. Que nesse dia dos finados você encontre um modo de lidar com a saudade e celebrar a memória da pessoa que você ama.

 

Natalia Ferreira de Paiva | Psicóloga – CRP 09/16681

Graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás. Formação básica em Psicanálise em andamento pelo Aletheia. Curso de Extensão: “Curso de capacitação de alunos de psicologia e pedagogia acerca do abuso sexual infantil” promovido pelo(a) Departamento de Teoria e Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Paraná – 20 horas. Curso “Atualização em Saúde Mental e Atenção Psicossocial na COVID-19” pela FIOCRUZ – 40 horas.